Caminhava em direcção a casa depois de um longo dia de trabalho. Já ia-mos a meio das gravações do filme 'Aquela ilha' e não posso negar, está a ser bastante divertido, mas também exaustivo para caramba.
Mas por hoje as gravações acabaram e amanhã só lá terei de estar as 4 da tarde, para depois sair a 1 da manhã, fogo ser actriz principal da cabo da insanidade de uma pessoa. É muita pressão. Mas pronto, neste momento apenas quero pensar num bom banho e jantar quentes, depois ir dar uma vista de olhos ao blog e ir ao facebook ver se encontro para lá a Joana e por a conversa em dia, meu Deus já não falamos á 3 dias.
Entrei em casa, coloquei o casaco no cabide e fui até a sala de estar. Lá estava o meu irmão agarrado a playstation (mas que raio, aquele miúdo não larga coisa, por nada deste mundo).
Ele virou-se para mim e disse:
- Olá, como foi o teu dia?
- Oi, puxado - disse olhando em volta para ver se encontrava a minha mãe - e o teu?
- Normal.
- Agarrado a isso!!
- Todo o dia.
- Não sei como és capaz.
- Também não sei como és capaz de aturar o chato do teu realizador que a única coisa que sabe dizer é 'corta' e que vos faz repetir cenas e cenas ...
- Sim, tá bem, já percebi - disse revirando os olhos - onde está a mãe?
- Na cozinha a preparar o jantar.
- Mas já são 10 são noite, a esta hora vocês já tinham comido a horas.
- Pois, mas hoje deu-lhe na cabeça esperar por ti.
Surpreendida fui até a cozinha deixando Bruno sossegado com o seu joguinho de consola. No corredor já cheirava bastante bem, sabendo que cheirava também um pouco a queimado e pelo cheiro a minha mãe devia estar a fazer esparguete com carne picada, o meu prato preferido. Entrei na cozinha e deparei-me com ela a deitar algo da panela directamente para o lixo.
- Olá mãe.
Ela deu um pulo e virou-se na minha direcção.
- Que susto!
- Desculpa, não era minha intenção assustar-te.
- Nem sequer te ouvi a entrar.
- Acredito, estás tão embrenhada nesse tacho,
- Pois, deixei queimar a massa e agora vou ter de fazer mais - soltei um risinho e ela lançou-me um olhar de reprovação - não tem piada.
- Tem pois, e desculpa dizer-te isto mas, ainda bem que não és daquele tipo de mães que se aventuram prai a fazer experiências. Senão por esta hora já estávamos todos no hospital.
- Ah ah ah, que gracinha, vem cá fazer o jantar então.
- Até ia, mas tenho um banho para tomar.
- Então vai lá.
- Só mais uma coisa.
- Sim.
- Porque decidiste hoje fazer o jantar a estas horas?
- Hum, é que jantas sempre sozinha, e eu ás vezes também me sinto mal com isso.
- Oh mãe, não precisas de te sentir mal.
- Mas sinto, pronto.
- Ok!
Sai da cozinha. A meio do corredor ouço a voz dela.
- Chama o teu pai, para me vir ajudar!
Soltei uns risinhos.
- Está bem - disse, notando-se o meu riso na voz.
- Eu ouvi!! - gritou ela da cozinha.
Passei pela sala e lá estava o meu irmão todo enfurecido com o jogo.
- Então? - disse, parando á porta.
- É esta porcaria, tenho os carros todos contra mim e assim é difícil ganhar o carro.
- Se fosse fácil também não tinha piada nenhuma.
- Pois, tá bem!
E calou-se voltando ao jogo.
Subi as escadas e fui directa ao escritório. É uma sala pequena, mas muito acolhedora. Tem uns quadros muito bonitos representando flores (coisas da minha mãe) também tem uma estante de madeira cheia de livros e ao lado um lindo sofá de pele castanho, uma pequena mesa a frente que continha uma caneca vazia, um prato com migalhas e um exemplar de 'O Código Da Vici'. Do outro canto da sala há uma enorme mesa com um computador fixo e uns 2 cadernos, eu pergunto-me sempre "para que uma mesa tão grande para coisas que nem metade ocupam?" O computador estava ligado num jogo de Formula 1 (outro viciado em carros, só que em vez de estar pregado a uma playstation é a um computador), mesmo em frente a porta do escritório há umas portas duplas que dão a uma varanda. Atravessei a pequena sala e fui até lá. Sentado numa cadeira de plástico azul escuro e com um cigarro entre os dedos está o meu estava o meu pai contemplar as estrelas.
- Olá Madalena!
- Pai, como sabia que estava aqui?
- Ouvi-te entrar.
Ele virou-se para mim.
- Como foi o teu dia?
- Cansativo e puxado.
- Precisavas de alguma coisa?
- Acho que precisamos todos.
- De que?
- Que ajudes a mãe a fazer o jantar.
- Ahahah!!
- Ahahah!!
Rimo-nos juntos.
- Sim, realmente é mesmo preciso.
Sorri-lhe :)
- E eu vou tomar um banho num instante.
- Sim vai, depois o teu irmão chama-te.
- Ok.
Sai do escritório e fui para o meu quarto.
Eu e o meu pai somos bastante parecidos e também somos muito esquecidos (são capazes de nos pedirem alguma coisa e passados minutos já nos esquecemos) ahahah. O meu pai sempre foi aquele que teve mais paciência comigo, foi aquele que me ajudou a perceber o lado da razão, e sempre que eu tenho alguma discussão com alguém ele diz para eu ter calma. É ele depois da discussão vem ter comigo e pergunta-me o que se passou, e eu as carradas conto-lhe, é ele que me diz o que devo ou não fazer quando esse tipo de situações acontecem, é ele que me ajuda a perceber por é que devo ou não fazer isto, é ele que tem pachorra para mim. A minha mãe já não é tanto assim, eu e a minha mãe agora estamos a viver aquela fase da adolescência de uma rapariga em que estamos sempre a discutir e nunca estamos de acordo, e o pior é que as vezes sinto-me mal porque ela protege muito o meu irmão :( mas pronto é vida. E a vida não é justa para ninguém. As vezes relembro o meu passado com muita saudade, relembro aqueles dias em que eu andava no meu 4º ano e que a minha mãe e eu depois das aulas enfiavamo-nos na shopping. Mas o tempo passou, e tudo mudou. Eu e a minha mãe somos muito mas mesmo muito parecidas na aparência, mas quanto ao meu feitio, esse é 100% pai.
Estatelei-me na cama exausta, tinha sido mesmo um daqueles dias mesmo grandes e cansativos, porque ter-mos de fazer uma cena em que estamos em alto mar no meio de uma tempestade é mesmo ... fogo.
Agora fixo o meu olhar no tecto e relembro a morte do meu melhor amigo. Acidente de viação. Começo a chorar. Vou sentir tanto a falta dele, dos seus concelhos, do seu amor e carinho, do colo dele, da maneira como me acariciava o queixo e as faces, a maneira como ele me olhava, como falava. Vou sentir falta das nossas zangas :s e das nossas pazes, abraços e beijos, dos nossos choros e brincadeiras. Vou sentir falta de quando eu me encostava ao seu peito e desabafava tudo, de quando eu chorava e ele dizia "chora a vontade" e eu chorava, de quando gritava com ele para descarregar toda a raiva e de seguida sussurrava um obrigada. Vou sentir tanto a sua falta :'(
Mas a vida é mesmo assim, uns morrem para dar lugar a outros. Tenho de seguir em frente, era isso que ele diria se estivesse aqui comigo.
Sento-me na cama, e limpo as lágrimas da cara, abro a 1ª gaveta da mesa de cabeceira e tiro de lá uma foto dele e sussurro:
- Oh Afonso, vou sentir tanto a tua falta.
Passo um dedo pela foto e volto a guardá-la. Depois levanto-me vou até ao armário e tiro de lá a minha camisa de dormir preferida, depois pego nas pantufas e vou até a minha casa de banho (porque sim, tenho uma casa de banho privada :b)
