Do outro lado do espelho
Passar pelo espelho do meu quarto e não reconhecer aquele corpo desolado, frio e sem vida é um tormento. Querer reencontrar-me dentro daquele espelho é um desafio já há muito desistido. Passar por ele e saber que não sou eu, não saber quem eu sou é um pesadelo. Quero rever-me. Com as faces rosadas, olhos grandes e fixadores, curiosos. A boca sempre aberta naquele sorriso tão meu, tão pessoal, tão carismático. Ao invés disso, vejo sorrisos falsos, olhos pesados, famintos, alma desolada, destroçada, com um amor mal acabado. Mentiras no coração, sofrimento carregado no peito. Sede de desejo de gritar ao mundo o quanto sente, o quanto também é humana, o quanto ter corpo bonito não significa ter mente perfeita. Sente-se sobrecarregada com todos os pesos do mundo. Sente-se na vontade de dizer uma palavra marcante, verdadeira mas as forças falham, as palavras voam pela mente mas a boca é incapaz de as pronunciar. Queria apenas uma única palavra, apenas uma para lançar a todos os que a rebaixam, que a desprezam, que a humilham á mais ínfima oportunidade, que a fazem chorar, que a rejeitam ao descobrirem o seu mais insignificante defeito, que lhe soltam olhares de ódio ao menor erro que possa cometer e para quem a obriga a fazer um sorriso falso só para não ter que receber um olhar de lado, risos sinicos, maldosos, comentários idiotas, dedos apontados, mentiras. E enquanto não tem forças para o fazer vai sonhando, sonhando com sonhos que provavelmente nunca se realizar-se-ão, recordando memórias falseadas e vivendo dias inimagináveis. Passar dias, semanas, meses a desejar ter forças para descer ao nível deles e esfregar-lhes na cara todas as noites mal dormidas, todas as vezes em que se trancou no quarto a chorar, todas as vezes em que eles a fizeram dúvidar de si mesma, mas principalmente mostrar-lhes que estão errados. Mostrar-lhes que o seu mundo foi congelado pelos seus corações gelados e que o sol já não brilha, e que a lua já nao sorri e que as estrelas já não piscam e que as desculpas não se pedem evitam-se. Queria fazer-lhes sentirem-se no fundo como tantas vazes ela se sentiu, queria fazer-lhes escorrer pela cara todo o arrependimento, toda a vergonha, a raiva, a inveja. Queria mostrar-lhes que todo o trabalho que eles tiveram não tinha servido de nada. Que mesmo depois de tudo aquilo ela continuáva ali, de pé. Queria falar-lhes e dizer que... falar-lhes? Para que? Para no minuto asseguir esquecerem-se de tudo, espezinharem as suas palavras e continuarem a gozar com a sua cara? Para isso mais vale desistir, mais uma vez, custa admitir, mas tem de ser. Ter de admitir que um dia foi feliz, que ignorava todos os olhares de lado, todos os dedos apontados, todas as mentiras e invejas, ela terá de admitir que um dia foi feliz assim. Mas também terá de assumir que lhe roubaram o sorriso, que lhes deixou ganhar, que sem eles a vida dela seria muito mais tranquila, muito mais feliz, e que foram eles que a fizeram desistir de si, dos seus sonhos. Ela terá de assumir que desejaria que eles desaparecessem deste mundo e a deixassem ser feliz.
