Estou de novo sentada neste muro, espero que tu apareças, espero por ver o teu primeiro sorriso do dia, a tua primeira risada. Desta vez, por entre os meus dedos não está o habitual cigarro, no lugar dele está um gelado. Baunilha e Chocolate. Será que é o teu preferido? Desde que te vi pela primeira vez que não sou capaz de pensar que és uma pessoa exatamente igual ás outras, que não passas de um desconhecido.
- Olá.
Dou um salto assustada.
- Calma, não te queria assustar.
Olho na direção da voz. Não. Não podia ser. Eras tu. Com o teu brinco preto na orelha esquerda e esses caracóis que sempre me encantaram. Os teus olhos têm um brilho perfeito, mais perfeito do que eu pudera imaginar.
- Não faz mal - balbuceio no meio dos meus pensamentos.
Um sorriso aparece nessa boca perfeita. É lindo, como tudo em ti. Parecias divertido por me teres assustado.
- Posso sentar-me?
- Humm, o muro não é meu.
- Pensei que fosse, estás sempre aqui.
Olho para ele com uma certa vergonha e culpa a trespassar-me. Depois quase que por instinto levanto-me, pronta a fugir, mas a mão dele é mais rápida. Agarra-me o braço.
- Não vás. Desculpa se te incomodei, eu posso ir embora - disse passando a mão livre pelo seu cabelo dourado. Decididamente, não estava á espera daquela minha reação.
- Não - disse demasiado depressa, um sorriso no canto da boca começava a reaparecer-lhe - quer dizer, ah, podes ficar, eu ... eu...
- Posso pedir a tua companhia?
Aquela pergunta apanhou-me completamente desprevenida.
- Nem que seja para acabares o teu gelado.
Olho para o gelado que ainda tinha na mão. Estava a derreter-se.
- Ok - acabo por responder olhando-o de relance.
Ele larga-me o braço e eu volto a sentar-me, ele faz o mesmo.
- Sou o João - diz olhando para mim e a sorrir-me.
- Carolina - respondo olhando em frente. Dou uma dentada no meu gelado, arrependo-me profundamente, pois uma dor aguda trespassa os meus dentes e arrepio-me ficando de imediato com pele de galinha.
- Não ademira que estejas com frio, estás de t-shirt, a comer um gelado e não tarda também chove.
- Estou habituada.
- A passar frio?
- Não, a vestir uma t-shirt e a comer gelado quando está quase a chover.
Mais um sorriso da parte dele, e eu não pude evitar, também sorri.
- Tens um sorriso lindo.
« Nada comparado com o teu » foi o que me apeteceu responder, mas a vergonha impediu, por isso apenas disse:
- Obrigada. Queres? - estendo-lhe o gelado.
- Pode ser - diz agarrando-o - mas se ficar constipado a culpa é tua.
- Come, depois preocupa-te com a consequência.
- É assim que pensas?
- Não, mas é assim que faço.
Ele abana a cabeça animado.
- E quando a consequência chega?
- Penso na próxima asneira.
- Ahahah - ele solta uma grande gargalhada.
Tic tic. Tic tic.
Merda, era a porcaria do despertador. Acabara de me acordar no exato momento em que não queria o fazer.
