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terça-feira, 10 de abril de 2012

Eu não sou a mera fotografia que tens em cima da mesa de cabeceira. Não sou apenas esse sorriso, nem apenas os olhos que tenho escondidos nesses óculos escuros. Não é apenas essa roupa que eu trago vestida nem o penteado. Eu quero que saibas que nessa fotografia estava com os ténis dourados e que nessa manhã não tive tempo de lavar os dentes e que por medo fechei a boca no último segundo, só para não perder o encanto aos teus olhos. Que cinco minutos antes estava com uma larga camisola azul e o cabelo apanhado num rabo de cavalo. Que os óculos redondos e escuros foram colocados atabalhoadamente pela Ana Rita e que o cigarro na mão era do Daniel. Que a varanda não é da minha nem da casa deles, é de uma casa abandonada no meio de uma rua agitada a cair aos bocados. Que para chegar a essa varanda haviam silvas e roseiras, pedras que magoavam os pés e não flores e relva suave que pensas. Que tenho os braços cheios de arranhões que a fotografia oculta. Que o batom foi colocado nos últimos segundos e que antes estava substituído pelos meus simples lábios carnudos e sem cor. Já estás a ver, essa fotografia é mentirosa, não te guies por ela. Eu sei enganar, os meus olhos agora tapados pelos óculos escondem os mil receios que segundos antes estavam a descoberto.